Se existem, onde estão?

Um orgulhoso guerreiro, chamado Nobushige, foi até o Mestre Hakuin, e perguntou-lhe: — Se existe um paraíso e um inferno, onde estão?

— Quem é você? — perguntou Hakuin.

— Eu sou um samurai! — o guerreiro exclamou.

— Você? Um guerreiro? — riu-se Hakuin. — Que espécie de governante teria tal guarda? Sua aparência é a de um mendigo!

Nobushige ficou tão raivoso que começou a desembainhar sua espada, mas Hakuin continuou:

— Então, você tem uma espada! Sua arma provavelmente está tão cega que não cortará minha cabeça…

O samurai desembainhou a espada e avançou pronto para matar, gritando de ódio. Neste momento, Hakuin anunciou:

— Acaba de se abrir o Portal do Inferno!

Ao ouvir estas palavras, e percebendo a sabedoria do Mestre, o samurai embainhou sua espada, e fez-lhe uma profunda reverência.

— Acaba de se abrir o Portal do Paraíso — disse suavemente o Mestre Hakuin.

Símbolo da irmandade

‘Purifiquem seus corpos e não comam coisas mortas que tenham olhado com olhos vivos para a luz do Firmamento. Pois que o olho é o símbolo da irmandade entre vós. A visão é o sentido místico’. ‘Estão miseravelmente equivocados aqueles que esperam vida eterna, mas não afastam suas mãos do sangue e da morte.’

– Clothed with the Sun: Being the Illuminations of Anna Kingsford, médica e mística cristã, 1846-1888

Empatia perfeita

Somente onde o Amor é perfeito, a Empatia é perfeita.

“Os erros do próximo me ferem, e os açoites no próximo recaem sobre minha carne. Sou ferido com as dores de todas as criaturas, e meu coração é perfurado junto com o coração delas. Não há ofensa feita que eu não sofra, nem qualquer erro pelo qual eu não seja atingido. Pois o meu coração está no peito de toda criatura, e o meu sangue corre nas veias de toda a carne. Sou ferido na mão direita pelo bem dos homens, e na mão esquerda pelo bem das mulheres; em meus pés direito e esquerdo, pelos animais da terra e pelas criaturas das profundezas; e em meu coração por todos”.

– Clothed with the Sun: Being the Illuminations of Anna Kingsford, médica e mística cristã, 1846-1888

Cuidado contigo mesmo

‘Primeiro, conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros.
O homem apaixonado converte até o bem em mal, e facilmente acredita no mal.
O homem bom e pacífico, ao contrário, faz com que tudo se converta em bem.
Quem está em boa paz de ninguém desconfia; o descontente e perturbado, porém, é perseguido por várias suspeitas e não sossega, nem deixa os outros sossegarem.
Diz muitas vezes o que não conviria dizer, e deixa de fazer o que mais lhe conviria.
Preocupa-se com as obrigações alheias e descuida-se das próprias.
Procura ter, pois, cuidado contigo mesmo, e depois poderás tê-lo, com direito, em relação a teu próximo.’

– Tomás de Kempis, místico do século 15

A prática revelada

‘O que faz da prática, prática? Intenção. Graça. Humildade. Consistência. Rotina. Perfeição. Imperfeição. Motivação. Repousar da motivação. Atenção consciente. Fazer algo diferente. Fazer a mesma coisa repetidamente. Fluxo. Sentir-se bem.

(…)

No curso dos meus anos de prática, eu comecei a acreditar que nossa intuição nos leva a um instinto mais profundo. Este instinto está profundamente embutido em nossa humanidade, é o instinto de nos tornarmos melhores. Nós podemos senti-lo. E para satisfazer este impulso frequentemente inconsciente, nós procuramos experiências e professores para ajudar-nos, para mostrar-nos, para dizer-nos qual a direção. Nós podemos não saber o que ele é especificamente, então procuramos professores e experiências que acendam o fogo inato em nós – que tirem este impulso do seu estado dormente e que nos motivem neste caminho instintivo. A partir de um certo ponto cabe a nós atiçar o fogo, trazer mais combustível. Isto é a prática. Conforme abanamos e assopramos, e procuramos por mais combustível, nós nos tornamos mais fortes, mais capazes, mais determinados, e nos tornamos mais conscientes.

Com o tempo, tornamo-nos aptos a recebermos ensinamentos em níveis mais profundos. Frequentemente dizemos a nós mesmos, “mas eu não posso praticar sozinho”, ou “eu vou praticar errado”, ou “eu vou tomar um caminho errado”. Verdadeiramente, estas são as piores coisas em que poderíamos acreditar. (…) Assim, quando interrompemos o processo de prática com atividade mental negativa (e “eu não consigo fazê-lo” é realmente uma escolha intencional), fechamos a porta para o nosso crescimento e para tudo que nos está disponível. Negamos nossos instintos naturais, nosso direcionamento intuitivo.

Com o tempo, tornamo-nos gradualmente menores, mais fracos, frágeis, menos conectados. É uma morte terrível, porque continuamos respirando mas não estamos crescendo. Os seres humanos são os únicos seres vivos que têm a habilidade de separar-se propositadamente da sua própria natureza. Os animais não o fazem, as plantas não o fazem, e nem mesmo os bebês o fazem. (…) É uma grande tristeza que tantas pessoas usem sua inteligência desta maneira. Intencionalmente, voluntariamente, propositalmente e consistentemente permitindo que o seu fogo se apague e morra.

Eu também sou humana, e conheço bem esta opção. A inércia de ficar sentada no sofá, cedendo à preguiça, é muito tentadora. Permanecer sonâmbula nas relações, e deixar a vida passar acenando. Não é que eu não faça estas escolhas – eu as faço. E tenho medo quando as faço. Eu diria que a Prática de fato é minha escolha consciente para manter-me viva. Não quero dizer apenas vivendo – eu posso manter-me alimentada, protegida e vestida. Eu quero dizer realmente viva. Engajada, motivada, refletindo sobre mim, intuitiva, vivamente viva. Às vezes, é uma escolha feroz. Uma escolha dura. Mas eu tenho medo de carvão apagado. E eu confio profundamente no fogo da Prática para manter-me indo adiante. (…) Minha profissão é acender e manter o fogo da Prática em outras pessoas. Ao fazê-lo, vejo alguns que praticam, e outros que não. Tento de diversas maneiras manter as várias chamas acesas e ensinar como fazê-lo por conta própria. Algumas vezes tenho sucesso, outras não. Mas aprendi a reconhecer que a única coisa que posso realmente fazer é manter minha própria prática viva, e desta forma oferecer o exemplo. A Prática mostrou-me com o tempo que eu não sou de nenhum modo perfeita, e nunca serei. Na verdade, a Prática eliminou a meta da perfeição. A Prática revelou-me que, na verdade, há dias em que nem mesmo sei se conseguirei manter minha própria prática nutrida com o passar do tempo. A Prática mostrou-me que não é um processo automático de inspiração-e-motivaçãoA verdade é a seguinte: há dias monótonos, e às vezes há anos monótonos. (…) A Prática me dá o veículo, o hábito, a disciplina, e mais importante a confiança de manter-me acesa, não importa o que aconteça. A Prática me apóia, e então, por algum ato de Graça e Humildade, me revela. ‘

– Kimberly Ivy, discípula de 20ª geração do Grão-Mestre Chen Xiaowang
http://taijiquan.pro.br/taichichuan/pratica-revelada/
Imagem: Zhang Ziyi in The Grandmaster

Oração da boa vontade


‘(…) compartilho agora mesmo a bem-aventurança e a lei da justiça com os seres que conheço, com os seres que não conheço, e os que conhecerei no futuro‘

‘Om, Shanti. Evoco o melhor para os meus semelhantes, para meus colegas e cada ser que conheço. 
Espero que  vizinhos e pessoas com quem interajo se libertem das causas da dor –  e do egoísmo, fonte do sofrimento. 
Que minha alma me afaste da ignorância. Que todos se ergam no caminho da Paz. 
Meu semelhante é meu irmão, saiba ele ou não disso.
Afasto de mim a imprudência, o descaso, o descuido e a ausência de saber. No silêncio profundo, percebo o equilíbrio. Ao lado do desapego está a sabedoria.
A consideração pelo outro é da mesma natureza que a consideração por mim. 
O erro do colega é meu defeito. A virtude do irmão é minha qualidade.
Os covardes pensam que se beneficiam com o tropeço alheio. 
Sou rigoroso comigo e generoso com meu próximo. 
Sei que boa vontade sincera não aceita indulgência: é para tirar vantagem que o preguiçoso e o manipulador estimulam a preguiça alheia. 
Altruísmo e rigor, combinados, produzem paz. A boa vigilância exige o melhor de si e dos demais. 
Não trato de dizer ao outro o que ele espera ouvir. Abstenho-me de falsidade. 
Querer o bem do semelhante é uma atitude sóbria, e fica longe das aparências.
Inclui a concordância e a discordância.
É inseparável da franqueza.
Não possui uma forma externa, e no entanto é perceptível onde quer que haja boa vontade. 
Desejar o melhor aos outros é uma maneira imediata de ser feliz.
Como tudo o que ocorre na alma, constitui uma atividade silenciosa e eficaz. 
A bem-aventurança olha para o alto. 
Evoco o melhor e o mais elevado para os meus semelhantes que convivem comigo,  e para os que não convivem. 
Desejo que se libertem da ausência de paz.
Que avancem pelo caminho da simplicidade, alcançando o contentamento. 
Compartilho agora mesmo a bem-aventurança e a lei da justiça com os seres que conheço, com os seres que não conheço, e os que conhecerei no futuro. Shanti, Om.’

Oração da Boa Vontade
Autoria: Carlos Cardoso Aveline

Lentes do discernimento

‘Não reclamar da vida, não reclamar das circunstâncias, não reclamar de si mesmo, são três regras básicas no caminho do autoconhecimento. 

Não ficar eufórico com a vida, não ficar eufórico com as circunstâncias, e não ficar eufórico consigo mesmo, são outras três regras básicas. 

Uma sétima regra é:   “Ter metas claras e nobres e trabalhar por elas com calma, sem esperar resultados imediatos, mas olhando o horizonte amplo.” Estes sete procedimentos têm bons resultados a curto e a longo prazo. Eles nos fazem ver o mundo e a vida com as lentes da moderação, da flexibilidade, do discernimento e da objetividade.’

– Carlos Cardoso Aveline

A definição de uma meta

‘Os hábitos diários e ações repetitivas são um aspecto decisivo do carma humano e merecem um exame constante.

É falso pensar, como fazem os desatentos, que um indivíduo atarefado não pode mudar sua agenda. Pintar a si mesmo como “escravo da situação” é uma forma infantil de negação da responsabilidade.

Os acomodados se colocam como espectadores da sua própria vida. Esperam que o mundo inteiro obedeça aos seus desejos. Trilham o caminho da derrota.

A verdade é que o fluxo da vida é plástico e se altera o tempo todo.

Quando o cidadão eleva e purifica o ponto de vista desde o qual observa o conjunto de tarefas que dependem dele, começa a perceber o potencial de mudanças para melhor que estava oculto diante do seu olhar.

A Raja Ioga ensina que a mente se adapta àquilo que está diante dela e àquilo em que pensa.

Suponhamos que um estudante de filosofia estabelece diante de si a visão estável de uma meta exigente, e ignora deliberadamente a impressão superficial – aparentemente “realista” – de que ela é impossível. Neste caso, o subconsciente e o supraconsciente do estudante terão tempo de avaliar o objetivo de uma maneira lentamente abrangente e transformadora, que é como trabalham estes níveis de consciência não-verbal.

Em seguida o caminho para o cumprimento efetivo da tarefa tem chances de tornar-se claro diante do peregrino. Se a meta pensada for de fato inviável, isso será visto; mas ainda assim o seu potencial de ação já estará definitivamente maior e mais forte.

A alma de cada um se organiza conforme suas metas.

Se o objetivo for recitar coisas bonitas sobre sabedoria universal, o aspecto decorativo da alma se expandirá.

Se a meta for vivenciar a sabedoria, o crescimento da alma será efetivo e talvez invisível, certamente mais difícil de perceber, e o aspecto probatório da caminhada deixará de ficar restrito ao plano verbal.

Nosso subconsciente e nosso consciente são grandes amigos e auxiliares de um poder quase incalculável. Mas cabe colocar diante deles metas elevadas, nobres, estáveis, eticamente corretas, e aplicar a elas uma vontade calma e firme.’

– Carlos Cardoso Aveline


A ilusão de sua narrativa pessoal

‘A maioria das pessoas investe inconscientemente enorme quantidade de energia e atenção na organização do pensamento para manter a ilusão de sua narrativa pessoal. É mais provável, no entanto, que um meditador considere sua história de um modo mais leve, considerando sua natureza relativamente verdadeira ao mesmo tempo em que se mantém aberto para o Mistério da totalidade que é sempre mais vasto e maravilhoso do que as nossas mais criativas fantasias.’

– Joel e Michelle Levey

Nossa mortalidade

Se você lembrar constantemente que você é mortal, você andará gentil e sensivelmente neste planeta.

‘Uma coisa significativa que todo ser humano tem que fazer é organizar sua estrutura psicológica e emocional em torno do fato mais fundamental de sua vida – sua mortalidade. Somente quando você fizer isso, você naturalmente se tornará pronto para um processo espiritual, para uma dimensão além do mundano. A natureza de sua mente lógica é tal que sempre quer eliminar a morte de seu pensamento. É por isso que a maioria das pessoas está estruturando seu processo psicológico em torno de uma ideia absurda de imortalidade – como se fossem para sempre. No dia a dia não há lembrete em seu pensamento de que esta é uma quantidade limitada de tempo e que você está apenas passando o bastão da geração anterior para a próxima. Leva uma vida inteira para as pessoas entenderem que são mortais.

Você precisa celebrar e aproveitar cada momento da sua vida, porque a bendita vida não espera por você nem por um momento. Por isso, é extremamente importante que você faça isso em um processo alegre e fantástico. Se você fosse imortal, você poderia desfrutar de cem anos de depressão, ansiedade, loucura e miséria, e então, no quinquagésimo aniversário, você poderia se tornar alegre. Mas esse não é o caso. Você é mortal e o tempo está passando.

Se você acha que estará aqui para sempre, ignorará completamente a vida, enredado em seu próprio absurdo psicológico que nada tem a ver com a realidade. Mas suponha que você soubesse que iria morrer na próxima hora, você notaria cada pedacinho da vida. Você não perderia nada.

Esta não é uma mensagem mórbida, é uma mensagem orientada para a vida. Você será verdadeiramente orientado para a vida apenas se souber que a vida tem uma quantidade muito limitada de tempo. Ser desagradável e deprimido é se orientar para a morte, não é? Você só tem tempo e espaço para todas essas coisas apenas porque você acha que é imortal.

Não há tempo para frustração, depressão, ansiedade ou raiva. Não há tempo para qualquer desagrado nesta vida.

Você só pode realmente desfrutar e caminhar alegremente por esta vida se você souber que você é mortal. Se você é constantemente lembrado disso, então todo este processo da vida irá se desprender do absurdo psicológico e da fisicalidade, e se direcionará para experimentar tudo. Isso te tornará super alerta. Sua vida irá naturalmente procurar algo além. Um processo espiritual se tornará um processo natural de crescimento para você – não algo em que você precisa ser empurrado.’

– Jaggi Vasudez, Sadhguru